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A Criação de Conan, o Cimério

Criação espontânea ou uma construção cuidadosa de personagem?


Por Marco Antônio Correa Collares

Imagens por Mark Wheatley (Howard) e Peter Stanimirov (Conan).

Mais uma postagem extraída do livro, Civilização e Barbárie em Conan, de Robert Howard, de minha autoria, desta vez sobre a criação do cimério. Em fevereiro de 1932, Howard, segundo relatos de cartas suas, viajou até San Antonio e ao Vale do Rio Grande, próximos a fronteira sudoeste do Texas. Lá, ele teria encontrado um chinês que lhe narrou as torturas presenciadas por ele no extremo oriente, quando integrantes do PC chinês foram decapitados em Pequin pelo Kuomintang, o partido nacionalista chinês. Após beber algumas doses de Tequila, Howard teria trocado seu boné de pano habitual por um sombrero mexicano, entrando em outro estabelecimento para comer tortillas regadas a vinho espanhol, quando, segundo ele mesmo, uma espécie de transe criativo teria concebido a figura do seu famoso personagem. Em uma carta ao editor da Weird Tales, Farnworth Wright, Howard relatou que o homem Conan apareceu em sua mente, sem qualquer processo consciente de sua parte. Depois, em outro relato, ele mencionou que Conan seria a mistura de todos os homens rústicos e "bastardos" que conheceu no Texas, em suas andanças, desde os trabalhadores dos campos de petróleo, os jogadores profissionais, os criminosos a procura de dinheiro, os aventureiros e rufiões. Depois, em uma carta de 1933, agora para o também genial escritor pulp, Clark Ashton Smith, Howard relatou que estava estéril de ideias, até que de súbito, o homem Conan se apossou de sua mente, como se ele existisse de fato.


O quarto onde nasceu Conan. No detalhe, Howard vestido usando um traje mexicano, provavelemente trazido de uma de suas viagens ao México.

Bem, sabe-se que essas representações são exageradas da parte de Howard. O estudioso Patrice Louinet relata o quanto o personagem foi sendo aos poucos concebido e o quanto Howard se autopromoveu nessas cartas, colocando Conan como um amálgama de homens da fronteira mesclado aos bárbaros que ele tanto gostava de suas leituras de história celta e outras. E já é mais do que conhecido que a primeira narrativa de Conan, The Phoinix on the Sword é uma adaptação de uma narrativa de Kull não aceita para publicação, intitulada de By this Axe I Rule. Também é sabido que Howard criou seu poema, Ciméria a partir dessa mesma viagem, colocando em suas linhas aquilo que ele lembrava de sua infância, quando vislumbrava o vale melancólico de Dark Valley, mesclando novamente ao que imaginava ser o País de Gales e a Europa celta dos tempos de outrora. Aliás, o argumentista Roy Thomas efetuou essa epopeia howardiana na fronteira na The Savage Sword of Conan, fazendo o escritor participar de uma aventura para salvar uma mulher em perigo ao lado do cimério. Também devemos acentuar que esses relatos fizeram Lyon Sprague de Camp difundir em sua malfadada obra que Howard talvez acreditasse na existência de Conan, o que é uma grande bobagem (ou má fé da parte dele). O fato é que Conan e outros personagens howardianos até mais complexos do que o cimério são deveras autorais e fazem parte de toda uma visão específica de fronteira, de civilização e de barbárie.


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