A Saga de JAMES ALLISON – de Robert E. Howard

Uma série de histórias de memórias raciais, conectando diversas personalidades celtas até o século XX, onde vive o personagem que liga todas elas.


por Marcelo Alves

O guerreiro celta Brachan é um dos personagens que está presente nas memórias de James Allison.

O ciclo da Saga de James Allison, escrito por Robert E. Howard, principalmente através do seu personagem, busca uma saída para a realidade patética a qual vive o protagonista através dos sonhos e da imaginação conectadas com a recordação de vidas passadas, em sucessivas reencarnações ao longo das Eras. Essa maneira de escrever narrativas desse gênero já havia acontecido com alguns escritores antes de Robert Howard, e alguns dos autores favoritos dele haviam trabalhado com o assunto em anos anteriores. Na novela “Antes de Adão” (série na Everybody's Magazine, entre 1906 e 1907), o autor Jack London começa afirmando:

“Nos meus sonhos, nunca vi nada do qual não tivesse conhecido em minha vida atual. Minha vida de sonho e a vida que eu vivo enquanto estou acordado são coisas separadas, sem nada em comum, exceto eu mesmo. Sou o único elo que, de alguma forma, conecta as duas vidas.”

E então o escritor nos oferece um conjunto narrativo ambientado na pré-história que, segundo ele, "sonhou", e que pertence a uma de suas encarnações anteriores. Este é o germe das histórias Howardianas sobre recordações raciais, ou "memória racial" - um termo cunhado pelo psicólogo Carl Jung -, e ao qual London retornaria em sua novela The Star-rover, ou “O peregrino das Estrelas” (1915). Neste livro, seu protagonista, Darrell Standing, preso em San Quentin por assassinato, e confinado em um lugar solitário, escapa de sua presente realidade brutal revivendo suas vidas passadas.


Não há dúvida sobre a influência desta novela no ciclo Howardiano de memórias raciais, dado que R. E. H. afirmou em mais de uma ocasião que era uma de suas novelas favoritas, quando escreveu:

“Eu li e reli (O Peregrino das Estrelas) uma e outra vez, ao longo dos anos, e sobe para a minha mente, como o vinho.”

Existem, é claro, outros possíveis precedentes. Em sua novela “Phra, o fenício” (1891), o autor Edwin Lester Arnold conta a história de um homem nascido em Tiro em 88 a.C., o fenício Phra que, depois de muitas aventuras no Mediterrâneo, morre na Grã-Bretanha em 56 a.C., durante a invasão de Júlio César, e sua esposa Blodwen fez com que ele tatuasse no corpo os eventos que ocorreram até então. Mas Phra acorda quase quinhentos anos depois, em 408 da nossa era, durante a retirada das tropas romanas da Grã-Bretanha; e, mais tarde, em 1066, durante a Batalha de Hastings; e em 1346, a tempo da Batalha de Crecy; e, finalmente, em 1586, em que supostamente seria sua última encarnação (o protagonista afirma ter descoberto seu manuscrito 300 anos depois, e publicando-o em 1898).


Além disso, a novela em duas partes “o Amante Eterno” de Edgar Rice Burroughs (publicado no pulp All-Story Weekly em 07 de março de 1914 e janeiro-fevereiro de 1915), fala sobre o homem das cavernas Nu, do Mioceno, de como ele viaja para o presente, saltando um abismo de 10.000 anos de distância, para se apaixonar pela reencarnação de seu amor perdido, Nat-ul.


No entanto, e apesar de tudo, é a Robert E. Howard a quem devemos esta extensa saga em que um homem aleijado e amargurado consegue escapar de sua realidade miserável, recordando suas encarnações anteriores, e não se pode deixar de perguntar quanto havia de Howard em seu personagem James Allison. Após a morte do Texano, Lovecraft escreveria sobre ele em uma carta para E. Hoffman Price:

"Sempre me deixou perplexo seu profundo conhecimento da História... mas o que eu ainda mais admirava era sua capacidade de compreendê-la e de povoa-la mentalmente em Eras passadas..."

Embora publicado de forma fragmentada ao longo de meio século, o ciclo de James Allison não é um ciclo curto. De todo ciclo, apenas duas histórias, “The Valley of the Worm” (O Vale do Verme) e “The Garden of Fear” (O Jardim do Medo) foram publicadas em vida do autor - o segundo em um fanzine amador, embora em breve seria reeditado em numerosos pulps e recompilações em formato de livro.

O terceiro conto canônico, “Marchers of Valhalla”(Aqueles que marcham até o Valhalla), aparecido em 1972 e publicado por Donald Grant, desmentiu completamente a crença de que todas as obras que valem a pena ler sobre Howard foram publicadas apenas durante a vida do autor ou pouco depois. Esse conto possui uma importante carga lírica, além de marcar claramente o início do ciclo e explicar ao leitor por que James Allison se lembra do que lembra. E é também o último relato completo de todo o ciclo, o resto consistindo em fragmentos, alguns dos quais seriam completados por diferentes autores.


Em primeiro lugar, “The Tower of Time” (A torre do Tempo), é baseado em uma das histórias originais que Howard não terminou, e que detinha o título provisório de “Akram the Mysterious” (Akram, o Misterioso). Isso explica as numerosas referências que, na primeira metade do texto, são feitas para o nome do vale em questão, e que, no final, são um pouco enigmáticas. Por que esse lugar é chamado "O Vale de Akram, o Misterioso"? Quem diabos foi esse Akram? Como Hengibar sabe esse nome, se ninguém lhe contou? É lógico supor que Howard pensava em dar a explicação, e que Lin Carter obviamente percebeu isso centrando-se na figura de Yavikasha (uma imitação óbvia da Akivasha de "A Hora do Dragão"). "A Torre do Tempo" - isto é, a versão concluída por Carter - apareceu na revista Fantastic, com uma ilustração interior de qualidade irregular interior de J. Michael Nally -, que nós hesitamos em incluir aqui. Como de costume nas revistas pulps e depois nos outros formatos (usado pela Fantastic), a história tem uma breve apresentação pelos editores, que nos diz que a parte escrita por Howard se estende para "entre dois terços e três quartos da história", isto é, entre 66 e 75 por cento da história (digamos 70 por cento), e que, de acordo com o fanzine "The New Howard Reader", equivale a 8700 palavras. Isso nos leva ao momento em que Hengibar chega diante da Torre do Tempo (um termo já mencionado no início da história), sendo, possivelmente, os 30% finais da história obra escrita por de Lin Carter. Em nossa opinião - totalmente subjetiva - Carter não fez um trabalho ruim, e o resultado é digno, apesar de ter deixado um importante cabo solto da história que já mencionamos.

O curioso é que "Akram the Mysterious" começa praticamente igual ao «O Jardim do Medo». Há diferenças sutis entre os dois princípios em sua versão original em Inglês e a tradução em espanhol, mas é bastante provável que, quando o leitor dê uma olhadinha nesses textos, não pode evitar uma estranha sensação de que já viu algo parecido. O curioso é que o fragmento inacabado "Akram, o misterioso” além de iniciar como "The Garden of Fear” continua a desenvolver elementos que também aparecem em “The Valley of the Worm” (um vale perdido e uma civilização antiga em ruínas) assim como no Jardim do Medo mencionado acima (uma torre isolada onde vive um sobrevivente de Eras esquecidas, rodeado por um jardim de flores estranhas e macabras). É como se Howard tivesse se cansado da história e a tenha recortada, aproveitando o início e o conceito de torre - ser velho – juntado com as flores sinistras do "Jardim do Medo" e decidido desenvolver o conceito de vale e ruínas perdidas no magistral «O Vale do Verme». Apesar de tudo isso – exceto os parágrafos iniciais da história – , “Akram o misterioso” continha novos elementos suficientes para ser interessante, além de ser um fragmento bastante extenso, motivo pelo qual consideramos bastante legítimo que tenha encorajado Carter em terminá-lo.


A história "Brachan, o celta" é um conto que Howard não finalizou. Como nas melhores histórias de memórias raciais, é imbuído de uma linguagem lírica e evocativa que nos faz lamentar que seu autor não continue com ela. No entanto, a narrativa é abandonada em um ponto em que a história pode ser mais ou menos fechada, razão pela qual não foi continuada por nenhum autor. É tudo do Howard.


The Guardian of the Idol” (O guardião do ídolo), por outro lado, faz parte de uma sinopse de 600 palavras, que Howard só desenvolveu em um fragmento de 750 palavras. O autor Gerald W. Page, veterano em terminar

obras incompletas da Robert Howard, foi contratado para terminar esta história, sem deixar de utilizar um só parágrafo do material que já existia. Às vezes, o ego - ou a incapacidade - do novo autor faz com que o resultado final perca o sabor original de Howard, mas esse não é o caso.


A história chamada “Black Aeons” (Eons Negros) pretende “fechar”, em certo sentido, o ciclo de James Allison. O fragmento original de Howard era muito curto – porém intenso, pois menciona o livro negro de Von Juzt como a primeira fonte de informação sobre a Idade Hyboriana de Conan – mas é muito breve (a parte que Howard conclui com a frase “Brill rio incrédulo”). Além disso, Howard menciona Allison e Brill, mas não nos fornece seus primeiros nomes. Aqui encontramos um experiente Allison, realizando escavações arqueológicas no Oriente, desenvolvendo-se como um personagem mais forte, mais "Howardiano", em uma história contada por um narrador onisciente.


Nota do editor: alguns desses contos citados já estão traduzidos e estão disponíveis em nosso blog, e em breve todos os demais estarão também.

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