Carta de Howard a P. Schuyler Miller

Como uma resposta a uma carta escrita por uma dupla de fãs acabou sendo extremamente reveladora sobre a carreira do cimério.


Por Marco Antônio Correa Collares

Existe uma carta fantástica de Howard datada de 1936 (você pode ler em português na íntegra no blog Crônicas da Ciméria), uns três meses antes da morte do escritor. Nela, Howard responde a dois fãs (P. Schuyler Miller e John D. Clark) que fizeram um mapa da Era Hiboriana e uma cronologia da carreira de Conan. Howard respondeu com alguns pontos bastante interessantes.


Os fãs de Conan e autores da carta, P. Schuyler Miller e John D. Clark.

Em primeiro lugar, Howard era contra uma cronologia de vida para o cimério. Ele afirma na carta que as aventuras de Conan seriam como se o cimério contasse fatos de sua vida e quando aventureiros contam fatos de suas aventuras, normalmente não estabelecem com precisão o que veio antes ou depois. A memória nem conseguiria fazer isso a contento. Em segundo lugar, Howard imaginava as nações hiborianas (do oeste thuriano) de forma mais delimitadas do que as do leste e do sul da Estígia. Para ele, os reinos ao oriente eram pouco conhecidos dos hiborianos e ele mal pensou em suas fronteiras de forma mais elaborada. O mesmo vale para o sul. Ele pensou mais nos kushitas, visto que teriam sido os primeiros negros a serem vistos pelos hiborianos mediante as incursões dos piratas barachos que se utilizavam ou as vezes até escravizavam os kushitas.


Mapa da era Hiboriana, no traço do próprio Robert E. Howard. Nesse mapa, é possível conferir a sobreposição sobre o continente Europeu.

Segundo Howard, não seria estranho a um hiboriano chamar os povos negros como um todo de kushitas pelo desconhecimento, visto que não saberiam diferenciar muito dos negros de Darfar ou Punt (e não acontece conosco quando chamamos todos os negros do velho continente de africanos ou na época de colonialismo português, quando chamavam os povos negros de povos da Guiné?). Segundo o autor, Conan tinha mais ou menos 17 anos quando se aventurou por Zamora em a "Torre do Elefante" e ele era mais maduro que qualquer jovem civilizado. Ele teria nascido em meio a um ataque dos vanires a sua tribo, que ficava a noroeste da Ciméria, sendo Conan um membro puro de sua raça, descendente dos atlantes. Seu avô era de uma tribo do sul e tinha tido contado com os hiperbóreos em suas escaramuças contra os cimérios. Conan teria conhecido dos hiborianos talvez pelos relatos do avô. Em Venarium, quando os cimérios atacaram o forte dos aquilônios, Conan tinha uns 15 anos, e já tinha 80 quilos e mais de 1,80m de altura.


2 anos depois, a dupla de fãs publicou "A PROBABLE OUTLINE OF CONAN'S CAREER", com direito a prefácio de HP Lovercraft.

Entre Venarium e Zamora, teria passado um ano e Conan teria estado no norte, passando uns dois meses com os aesires, quando participou de batalhas contra os vanires. Provavelmente, o conto da "Filha do Gigante de Gelo" seria dessa época (ainda que Howard não mencione na carta). Suas lutas nesse período contra os Hiperbóreos o fizeram odiar esse povo, muito mais até do que pictos e vanires, visto que teria sido prisioneiro deles, o que demonstra a política de Conan como rei contra essa Nação (infelizmente não existe um conto sobre Conan que trate desse ponto). Depois disso chegou em Zamora para a aventura da torre de Yara e de Yog-Kosha, se dirigindo a alguma cidade-Estado localizada a oeste do reino, onde participou do conto chamado de "Inimigos em Casa" (ainda que Howard não mencione o nome da cidade e se ela ficava em Zamora). Segundo ele, Zamora vivia um regime de despotismo absoluto e a contenda entre o nobre Murilo e o feiticeiro vermelho Nabonidus não poderia ocorrer naquele reino. Bem, o fato é que na carta Howard dá um salto e explica que Conan se tornou rei quando tinha quarenta anos, tendo quarenta e quatro no romance "A Hora do Dragão".

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