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Crítica: A Espada Selvagem de Conan, A Coleção #1

Atualizado: 4 de abr. de 2020

Uma análise completa história a história da primeira edição capa dura de A Espada Selvagem de Conan


por Ronan Barros

Após alguns contratempos, a coleção capa dura de “A Espada Selvagem de Conan” finalmente chegou ao Brasil. Inicialmente ela havia sido anunciada pela Salvat em 2017 mas agora está totalmente sob a direção da Panini. A proposta desta coleção é bem simples e direta, é trazer todas as histórias de Conan na mesma ordem de lançamento de quando foram publicadas nas clássicas revistas “Savage Tale” e “The Savage Sword of Conan”. O formato magazine e em preto e branco, foi a forma que a Marvel encontrou para burlar o “Comics Code Authority” e conseguir, assim, lançar revistas em quadrinhos com um teor mais adulto. A ideia deu certo, “Savage Tale” cresceu, Conan se tornou um ícone e a revista mudou o nome para “The Savage Sword of Conan”.


Como cada número desta coleção apresenta várias histórias compiladas, farei, por bem, uma análise individual destas e um apanhado geral da edição ao final do texto. Nesta primeira edição da coleção temos a compilação de 5 histórias protagonizadas pelo personagem, um poema adaptado e alguns textos de apoio/curiosidades.



A FILHA DO GIGANTE DE GELO

A primeira história desta coleção é a clássica “A Filha do Gigante de Gelo” com roteiro de Roy Thomas e arte de Barry Smith adaptando um pequeno conto de Robert E. Howard, o criador de Conan. Este conto apresenta um Conan jovem e bastante impetuoso. Após sobreviver a uma contenda entre os Aesires e Vanires, Conan se encontra a beira da morte em uma situação de extremo frio e neve nas montanhas ao norte da Ciméria, sua terra natal. Eis que surge do nada uma linda e sedutora garota seminua. Mas, quais verdades estão por trás de misteriosa figura? A história é curta, porém, cumpre bem boa parte dos requisitos de uma boa obra de Espada e Feitiçaria. Possui ação e mistério em doses bem administrada que realmente cativa e inspira a leitura. A arte de Barry Smith ainda não era aquele suprassumo que ele se tornou, mas já dava indícios do quanto este artista realmente poderia fornecer. E mesmo numa história tão pequena, já podemos perceber a genialidade de Howard em contar histórias e, talvez, o maior mérito desta história é justamente saborear um Conan na ideia mais pura de seu criador.


Nota: 8



CIMÉRIA

Aqui não temos uma história em si, mas, um poema adaptado para quadrinhos. O poema, escrito por Howard, fala da triste e fria Ciméria, terra natal de Conan, e é lidamente ilustrado por Barry Smith. Não cheguei a olhar a versão original em inglês mas tenho plena certeza que muito da métrica e rima se perdeu na tradução em prol de manter o sentido do texto. O que é uma pena, mas, compreensível. É muito difícil traduzir poemas mantendo todas as características sem perder algum ponto, métrica, rima ou sentido.


Nota: 8 (imagino que seria um 9 na versão em inglês).



A CIDADELA DOS CONDENADOS

Ainda na dupla Roy Thomas e Barry Smith, esta é com certeza a melhor história desta edição (não por menos, leva o nome na capa). Assim como “A Filha do Gigante de Gelo”, “Cidadela dos Condenados” é uma adaptação direta do conto “Red Nails” de Robert E. Howard. Nesta adaptação Conan divide o protagonismo com Valéria, a pirata da Irmandade Vermelha, e, juntos, eles se encontram perdidos numa floresta. Para se protegerem das selvagens ameças, ambos decidem se refugiar em uma misteriosa cidade fantasma. O que eles não imaginavam é que esta cidade possuía muito mais segredos e intrigas do que aparentava.


A historia apresenta um protagonismo bastante dividido entre os dois personagens e, em alguns momentos, o destaque vai até mais para a Valéria do que para o Conan. E isto não é demérito. A Valéria não só tem bons momentos na trama como é uma personagem cativante, forte e determinada. Acompanhá-la na história é uma leitura bastante agradável. O mais divertido é ver a seca tensão sexual entre o casal. Conan deixa bem claro suas intenções para com a Valéria da qual ela não parece muito de acordo. Ao ponto de até sacar a espada para o Cimério.


Mas a trama deslancha mesmo é quando ambos os personagens adentram a estranha cidade fantasma. Aqui o teor aventuresco ganha novos níveis de mistério e terror com direito a monstros na escuridão, aparições sobrenaturais e sobreviventes aterrorizados. Inicialmente, sem muitas respostas o leitor acaba embarcando numa situação de aflição e o próprio desespero meio que nos obriga a continuar na agradável leitura. Mais ao fim as coisas vão se esclarecendo, e toda uma trama política, romântica, sensual (com direito a uma insinuação lésbica) e oportunista vai tomando o rumo da história, sem perder, claro, seu foco na ação e feitiçaria.


A arte de Barry Smtih ainda não estava no seu auge, mas aqui já temos vislumbre de sua maestria. Os roteiros de Thomas seguem com boa fidelidade o conto original o que torna esta adaptação um grande obra.


Nota: 9



A NOITE DO DEUS NEGRO

Aqui temos uma situação interessante e que se repetiu mais de uma vez. Roy Thomas adaptou um conto de Howard que não era de Conan como se fosse do próprio. O conto original é situado no século XI e protagonizado por Turlogh Dubh O'Brien, mas, aqui, se tornou um conto na Era Hiboriana protagonizado pelo Conan. Nesta história o jovem Conan volta a ciméria para reencontrar um antigo amor, Mara, e acaba descobrindo que ela havia sido sequestrada pelos Vanires. Em sua jornada para resgatá-la, ele acaba descobrindo uma misteriosa estranha estátua de um ídolo negro. Os desenhos desta história ficaram competentemente nas mãos de Gil Cane e Neal Adams que entregaram um trabalho bem acima da média. A personalidade do personagem, por sua vez, parece um pouco deslocada ao Conan o colocando mais introspectivo e taciturno do que geralmente estamos acostumado. Até mesmo a existência de um amor adolescente parece meio desentoar do que geralmente lidamos com o personagem. Apesar de não ser um história ruim, acho que ela funcionaria melhor com o seu personagem original.


Nota 7



O HABITANTE DAS TREVAS

Diferente das histórias anteriores, aqui Roy Thomas arrisca um roteiro totalmente independente. A Arte é por Barry Smith que mantém basicamente a qualidade já conhecida. Ao tentar beber água em um oásis na cidade de Zahmahn, Conan é aprisionado pelos guardas locais e levado para julgamento à Fátima, uma possessiva, sádica e tirana rainha do local. Esta decide como punição torná-lo capitão da guarda (oi?!?) o que é apenas um título nobre para ser um escravo sexual da rainha (hahah)!!! Sim, isto mesmo. Nesta história Conan é literalmente tratado como um objeto sexual de uma possessiva rainha. Mas pessoas possessivas são perigosas e qualquer movimento em falso… as coisas saem do controle.


Olhando a sinopse acima a história parece ser digna de uma novela mexicana, mas, pasmem, eu gostei. Sim, o roteiro é fácil e com algumas conveniências do tipo “encontrar uma arma quando se precisa de uma arma”, porém, os textos narrativos são bons e o pastiche ganha um interessante tom de tensão e suspense perante a presença de um misterioso ser que habita a escuridão. A existência de um matriarcado também é algo interessante… mesmo que feito de forma clichê. Os diálogos mostra um Conan bem impetulante e de argumentos tão fortes quanto seu próprio braço. A historia, mesmo curta e com seus porém, desce superagradável.


Nota: 8

O SEGRE"G"O DO RIO DA MORTE

Sim, tem um erro de revisão bem no título desta história. É óbvio que seria “segredo” no lugar de “segrego”… é muito ruim ver um erro tão simplório deste numa posição de destaque como o título. Mas… enfim… O roteiro desta história é de Roy Thomas (como sempre) adaptando uma história de John Jackes (criador de Brak, The Barbarian, uma cópia genérica de Conan). A arte é de Al Migrom e Jim Starlin, sim… o criador de Thanos. Após beber a água do Rio da Morte, Conan acaba envolvido com uma aldeia onde os moradores misteriosamente escondem seus rostos. Para ajudá-los, Conan precisa enfrentar o senhor de um castelo, seu mago e suas armadilhas.


Bem… ler esta história me remeteu aquelas mais simples aventura de RPG onde o mestre simplesmente vai jogando um desafio após outro. Em pouquíssimas páginas Conan enfrenta um gigante, recebe uma missão, invade um castelo, enfrenta uma armadilha, luta contra outro gigante, luta com o senhor do castelo, enfrenta o mago e assim vai… tudo feito de forma muito simples, direta e linear. Praticamente um… missão dada, missão cumprida. É provavelmente a historia mais fraca desta edição. Os desenhos de Jim Starlin faz bons contrastes de preto e branco, porém, em alguns momentos parecia que ele estava desenhando o próprio Adam Warlock como o senhor do castelo. A capa, o colã pregado ao corpo, a joia sobre a testa… parecia até algum super vilão fugido da era atual da Mavel para a Era Hiboriana.


Nota: 6



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta primeira edição compila as histórias de Conan lançadas nas 5 edições de Savage Tales. Como a revista ainda não levava o nome Conan, algumas histórias do personagem são curtas e provavelmente já foram pensadas com o número de páginas reduzidos para dividir espaços com outros personagens. O destaque desta edição é a adaptação de “A Cidadela dos Condenados”. Roy Thomas faz um bom manejo do texto original e a obra entregue realmente adapta bem a história contada por Howard. Tal história carrega bem ótimos conceitos do subgênero “espada e feitiçaria” ministrando terror, suspense, erotismo e ação o que, com certeza, vai começar a ser o praxe das edições seguintes. Além das histórias, a edição ainda conta com 4 ótimos textos de apoio que vão desde uma introdução para as histórias, como também artigos de biografias, curiosidades e afins. Estes textos são realmente enriquecedores e nos fazem ter um panorama maior sobre o personagem.


Outro ponto a se considerar seria a produção da obra em si. A capa dura e arte Boris Varejo são competentes, o papel, apesar de não ser o melhor do mercado, cumpri bem sua função como branco e contraste com o preto. A impressão parece vacilar um pouco em “A Filha do Gigante de Gelo”, mas não senti nada tão comprometedor. A revisão realmente deixou a desejar. Alguns erros bobos como o caso do “segreGo” numa posição de destaque poderiam ser facilmente evitados. Mas, mesmo com todos os pesares de produção, é ainda com uma alegria imensa que recebo esta coleção. Ver um personagem tão querido por mim recebendo um tratamento digno de ilustrar a estante da sala é algo sem tamanho. Sem falar que a oportunidade perfeita de se conhecer o personagem e acompanhar o que há de melhor em sua saga.

Nota Final: 8

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