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Resenha - O Guia Robert E. Howard, de Patrice Louinet

Uma análise do livro que é leitura obrigatória para os admiradores da obra de REH


por Marco Collares

A tradução para português deste livro foi realizada por Alex Magnos, da Red Dragon Publisher.

Quando por volta de 2015, eu comecei a estudar academicamente os contos de Conan, bem como a vida e a trajetória profissional do escritor texano, Robert Ervin Howard, eu entrei em contato com os estudos de Patrice Louinet, a começar pela introdução da compilação dos contos originais howardianos pela editora Conrad, de 2006. Logo, fiquei sabendo de uma obra de Louinet, escrita em inglês e também em sua língua materna, o francês, chamada de Le Guide Howard, e a comprei pela Amazon francesa, chegando em minha casa no final daquele primeiro ano de estudos.


O autor Patrice Louinet. (foto: divulgação)

Pois bem, utilizei os textos de Louinet e de tantos outros pesquisadores da obra, vida e trajetória de Howard e terminei o mestrado de história que tinha iniciado. Publiquei esse estudo em um livro e logo entrei em contato com diversos estudiosos, fãs, adoradores e profissionais pelo Brasil que igualmente conheciam profundamente a trajetória de Howard e de seus diversos personagens criados nos distantes anos 1920-1930.


Um desses excelentes profissionais foi o editor da Red Dragon Publisher, editora de livros, contos e de HQs, Alex Magnos, que me revelou por contato online que estava traduzindo a citada obra de Louinet do inglês, o que realmente aconteceu para minha satisfação pessoal e profissional.


Com esta obra lançada e publicada em 2019, pude rever os excelentes insights de Louinet, aprofundando meu “olhar” devido a leitura em minha língua materna. Aliás, muitos acadêmicos e estudiosos em geral afirmam que uma boa obra na língua original é essencial para alguém captar as ideias de um autor, sendo a tradução essencial para uma leitura errônea, se mal executada ou para uma leitura profícua, se bem realizada.


Pois bem, posso dizer, com toda a autoridade de quem leu e estudou a fundo o texto original em francês, que a tradução de Alex Magnos (mesmo sendo do inglês, também lançada por Louinet) é fantástica e que o leitor brasileiro pode ficar tranquilo quanto a captação correta das ideias do autor na obra. Algo, aliás, comumente executado por Alex Magnos e sua equipe de profissionais da supracitada editora, em suas traduções de contos ou mesmo de narrativas diversas (incluindo HQs) de escritores de fora do país.


Mas do que realmente trata essa obra, anunciada em seu título como um guia para a compreensão da vida e da obra de Robert Howard? Pois bem. Em termos gerais, trata-se de uma potente e necessária desconstrução dos estereótipos e pré-conceitos que muitos fãs e adoradores de Howard e de seus personagens ainda possuem sobre o escritor texano e sua mais famosa criação: Conan.


Louinet, seguindo os passos do estudioso e fã de Howard, Glenn Lord, busca, no guia, desvelar que muito do que sabemos sobre Howard e sua mais famosa criatura são quase que invenções de autores e biógrafos de má fé, sendo Lyon Sprague de Camp, com sua biografia, Dark Valley Destiny, um dos casos mais gritantes de distorções sobre Howard e seu Conan. O mesmo vale para o filme de John Millius, estrelado pelo fisiculturista Arnold Schwarzenegger, visto que muito do que vemos na tela grande não é quase nada do Conan howardiano, mas sim uma visão de diretor.


O livro possui várias fotografias de Howard, das 39 conhecidas.

Aqui entramos no primeiro capítulo da obra de Louinet, quando ele efetua, portanto, a desconstrução de diversos estereótipos sobre Howard e Conan, desvelando mediante o uso de fontes de informação fidedignas e com critérios e métodos científicos, que muito do que se difundiu sobre o criador de Conan é pura invencionice sem sentido.


Na obra de Louinet vemos alguns exemplos que revelam que Howard não era antissocial, não teve uma infância solitária e infeliz, não tinha qualquer complexo edipiano em relação a sua mãe tuberculosa, não acreditava na existência real de Conan, não era mais rico que o banqueiro de sua pequena Cross Plains e não fora um recluso em sua juventude.


Em seguida, no segundo capítulo e novamente usando fontes de informação e efetuando aquilo que nós, historiadores chamamos de tratamento documental das fontes, Louinet traça uma breve biografia de Howard, questionando as conclusões carentes de sentido de Sprague de Camp e desvelando, tal como no capítulo anterior, o quanto o pretenso biógrafo e escritor de pastiches de Conan distorceu fatos da vida de Howard, incluindo considerações extraídas de entrevistas com aqueles que conheceram e conviveram com o autor texano.


Posso dizer com segurança, como historiador profissional, que não cabe ao estudioso jamais e de forma arbitrária, inferir para além do que dizem as fontes de informação. Nossa intepretação vai até onde vão as fontes, sendo guiadas por elas acima de tudo, valendo também para biógrafos. Posso dizer que Louinet explica a contendo o quanto muitos fatos da vida de Howard foram distorcidos por seus pretensos biógrafos, desvelando então aspectos do escritor texano ainda pouco conhecidos do grande público.

As histórias de Howard são analisadas e as capas das publicações são reproduzidas, sempre com datas e outras informações.

Os capítulos, terceiro, quarto e quinto são igualmente fantásticos e servem como verdadeiros guias aos fãs de Conan e de Howard acerca dos mais variados contos escritos pelo texano, não apenas aqueles do cimério em especial, mas também de seus múltiplos e fantásticos personagens.


Aliás, Louinet, ao longo do guia, reforça um fato que não pode ser jamais esquecido: que o cimério Conan não foi considerado por Howard a sua principal criatura, o que em nada diminui o personagem, muito pelo contrário. Conan foi uma boa forma de Howard ganhar dinheiro nos difíceis anos 1930, sendo exaltado pelo texano em cartas, algo que ele comumente fazia com vários de seus personagens. O fato é que o cimério era um dos tantos personagens howardianos, sendo que o texano tinha, inclusive, predileção por outros tantos que não o cimério, como comprovam algumas cartas em que Howard menciona seu gosto especial por Sailor Steve Costigan, seu marinheiro boxeador, aquele que teve mais escritos publicados.


Entre tantos contos e personagens que são mencionados e brevemente resumidos por Louinet nesses três capítulos de seu guia, estão: Francis Xavier “El Borak” Gordon, Cormac FitzGeoffrey, Kull, Salomon Kane, Dark Agnes de Chantillon, Turlough O’Brien, Bran Mak Morn, Cormac Mac Art, o já mencionado Costigan, entre outros (Veja um pouco mais sobre estes personagens neste post aqui).


O leitor poderá encontrar nesses três capítulos do guia algumas sinopses excelentes de Louinet sobre diversas narrativas howardianas, narrativas essas consideradas as mais ricas e complexas, segundo especialistas. Uma boa chance para aqueles que não conhecem a vasta obra de Howard (ou que conhecem apenas as narrativas de Conan) adentrarem no universo histórico-ficcional desse grande escritor dos EUA.


Chegamos no capítulo seis e a partir daqui até o último capítulo, o capítulo onze, Louinet efetua um movimento fantástico e necessário. Ele desvela as múltiplas diferenças conceituais e narrativas entre o Conan literário de Howard e os diversos cimérios que foram veiculados em outras mídias, incluindo em HQs, TV, games e cinema.


Bastidores do cultuado filme Conan the Barbarian (1982), estrelado por Arnold Schwarzenegger e dirigido por John Millius. (Foto: divulgação.)

Entre suas diversas considerações, Louinet explica que o Conan de John Millius, da produção fílmica de 1982, não é o nem perto o personagem de Howard, mas sim a visão que o diretor tinha do bárbaro histórico, Gengis Khan, incluindo falas colocadas na boca do cimério do filme.


Existem diversos outros pontos no guia que devem ser evidenciados. Como aqueles que dizem respeito ao fato de Howard jamais traçar uma trajetória de vida para Conan até que ele se torna rei da Aquilônia ou mesmo a ideia de um “Conan, o Bárbaro” expressar muito mais um personagem de outras mídias e não o da literatura, visto que, segundo Howard, ele contava algumas aventuras de um cimério chamado Conan, que por sinal era um bárbaro em meio ao mundo civilizado.


Em outras palavras, o guia faz os fãs, aficionados por fantasia em geral, estudiosos e mesmo os leigos imergirem na obra de Howard. Louinet traça ainda os pontos de convergência entre o escritor texano e Lovecraft, trazendo cartas que foram escritas e enviadas entre eles em meio ao círculo de escritores pulps dos anos 1920-1930, e que comumente comentavam as obras uns dos outros.


Além disso, Louinet igualmente traça paralelos entre Howard e Tolkien, criador de The Lord of the Rings, além de efetuar uma excelente análise de Conan em outras mídias ao longo do tempo, após o personagem sair da literatura original e chegar aos quadrinhos, ao cinema, a televisão e aos jogos digitais.


Em resumo, se os leitores do blog querem realmente conhecer mais a fundo a vida, a trajetória profissional e a complexa e multifacetada obra de Robert Howard, se querem mesmo saber mais sobre Conan, tanto aquele da literatura original, como o dos pastiches de outros escritores ou até o de outras tantas mídias além da literatura, bem, o leitor precisa adquirir e ler esse guia.

Posso dizer que é uma das mais profícuas referências sobre todos esses pontos supracitados. E sim, temos o texto em português, muito bem traduzido e a disposição no site da editora Red Dragon Publisher.

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